Obra quase desconhecida (Jornal Publico)
Ausente dos seus currículos, o trabalho de Sócrates como projectista é
muito pouco conhecido. Mesmo os seus amigos da Guarda ignoram se essa
actividade se estendia a outros concelhos. Questionado pelo PÚBLICO,
Sócrates confirmou que exerceu “funções privadas” desde 1980, mas nada
adiantou quanto ao número, natureza e localização das obras que projectou.
O arquivo camarário da Guarda mostra, porém, que essa actividade, no caso
daquele município, teve algum relevo. O PÚBLICO consultou aleatoriamente
mil processos de licenciamento de obras particulares de entre os cerca de
4000 submetidos à autarquia entre 1981-1990. E só nessa amostra de um
quarto da totalidade dos processos encontrou 27 com a assinatura de José
Sócrates. No essencial, trata-se de casas de emigrantes, ampliações e
anexos mas também dois edifício de habitação colectiva.
Destacam-se os processos em que o primeiro-ministro, então engenheiro
técnico ao serviço da vizinha Câmara da Covilhã, assina – quase sempre
com reconhecimento notarial – peças manuscritas, nomeadamente memórias
descritivas, termos de responsabilidade e cálculos de betão, em que a
caligrafia usada nada tem a ver com a de José Sócrates. Muitas vezes, essa
caligrafia, inconfundível, é a mesma que aparece nos autos das vistorias
realizadas no fim das obras pelos técnicos da Câmara da Guarda: a letra de
Fernando Caldeira, colega de curso do primeiro-ministro e que, por ser
funcionário do município, estava legalmente impedido de subscrever
projectos na área do concelho.
Noutros casos, os trabalhos manuscritos apresentam uma caligrafia que não
corresponde nem à de Sócrates nem à de Caldeira, e alguns deles aparecem
dactilografados. Comum a muitos dos projectos assinados pelo técnico da
Covilhã, que em 1986 se tornou líder distrital do PS em Castelo Branco, é
o facto de serem rapidamente aprovados, apesar dos reparos e observações
críticas dos arquitectos da repartição técnica da Câmara da Guarda e
até dos pareceres contrários da administração central.
Coincidente em muitos deles é também o facto de os donos dessas obras
garantirem que José Sócrates não é o autor dos projectos das suas casas.
Dos 13 proprietários que o PÚBLICO conseguiu localizar – muitos dos
outros residem no estrangeiro e alguns já faleceram –, apenas um, António
Lourenço Fresta, confirmou que foi com ele que “tratou do assunto”.
maqueta 1-50 da moradia de gaveto da rua de Santa joana princesa