Quem foi Francisco Farinhas, "o Diamantino" de Pardilhó, a quem o desastre
de um lugre abriu espaço, por herança, para ser construtor da terra firme?
Esta é uma história que fala pouco do homem como indivíduo, suas aventuras
e desgostos, mas questiona constantemente o que é isso, afinal, do ser
arquitecto e arquitectura. Nele se manifesta desde cedo a inquietude de quem
aspira sempre mais para a sua realização pessoal. Mas, a par do exercício
egocêntrico de afirmação no interior do seu grupo social, surge
inevitavelmente um outro estádio de desejo para se enquadrar no grupo mais
poderoso, numa procura incessante de afirmação. E em cada momento se revela
o gosto pela arte, não como um meio para justificar a sua razão de existir
ou para se colocar em estado de equilíbrio com o mundo que o rodeia em cada
etapa da vida, mas como uma necessidade natural de contribuir para a
realização do homem total no seu próprio tempo, com a consciência dos
meios e capacidades limitadas de que dispunha e orgulhoso de tirar o máximo
partido dos recursos postos à sua disposição para deixar uma obra que
entendia ser a arte possível em benefício dos seus concidadãos. Que era
afinal um testemunho da sua passagem pela vida.
As necessidades expressivas que se desenvolvem no seio das diversas
comunidades locais são dificilmente satisfeitas através da acção dos mais
consagrados artistas da forma, que se empenham em encontrar soluções de
ruptura fora do alcance ou entendimento do senso comum, quando não se
reduzem a um simplismo depurado próximo da atitude de neutralidade. Ao
contrário, é no campo dos consensos básicos em que os usuários aceitam a
moda imposta sem qualquer intenção estilística numa receptividade
acrítica, que se movem alguns espíritos mais inquietos, procurando
encontrar respostas directas ao gosto espontâneo, com o prazer de sentir que
podem estar a criar uma arte de valor individual reconhecido. São artistas
no verdadeiro sentido do termo, porque se colocam numa posição realista
indo ao encontro dos anseios das pessoas simples. Acabam por produzir uma
arte por vezes de elevado mérito, sendo capazes de absorver métodos
construtivos postos em dia pelo recurso às técnicas de comercialização
por impacto a que recorrem as empresas modernas. Não lhes repugna o uso de
materiais brilhantes, coloridos, atraentes ao olhar, capazes de organizar a
imagem vistosa posta em evidência até nos contínuos construídos, seja
pela facilidade de inovação que oferecem, seja pela confiança que sugerem
quanto à eficácia e durabilidade.
Domingos Tavares (Ovar, 1939), arquitecto, formou-se na Escola Superior de
Belas Artes do Porto em 1973. É Professor da Faculdade de Arquitectura da
Universidade do Porto.
Autor:Domingos Tavares
Dimensões:(22,5x15,0) 183 p.
Edição:Dafne Editora, Porto, Março 2008
DL:271 651/08
ISSN:978-989-95159-7-0
Preço:17 euros