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Gabinete: José Vitória Arquitectura
Localização: Praia da Costa Nova, Aveiro. Portugal
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Nas primeiras visitas à casa, sozinho, de imediato quis recuperar o existente na integra, adaptando apenas a intervenção ao mínimo para cumprir a regulamentação atual. Fiquei fascinado com a casa, marca uma época, uma forma de habitar, uma memória que queria perpetuar no tempo.
Em reunião com os donos de obra, apercebi-me que o programa era diverso do que estava á espera. A pretensão era um programa misto de habitação e serviços, e de imediato me apercebi que a intenção era substituir o miolo na sua íntegra, por solução construtiva convencional (pilar e vigas com alvenaria e gessos cartonados, não aproveitando o existente, confesso que me doeu a alma….tinha outra expectativa, a recuperação integral do existente.
Procedeu-se ao levantamento arquitectónico do edifício, com uma analise detalhada das patologias existentes no edifício, de facto o estado, das madeiras, dos tabiques, do vigamento em madeira encontrava-se em muito mau estado, devido ao abandono que o edifício teve nos últimos anos.
Quantificou-se os custos para a substituição integral do existente, respondendo ao programa, solicitado. Resultado, a falta de mão-de-obra com conhecimento técnico para replicar as soluções construtivas, foi uma dificuldade enorme, e por tal motivo, os custos eram de facto completamente impossíveis de suportar.
Com grande pena minha, partiu-se para a solução já recorrente, e que nunca me agradou, manter apenas a fachada, com a exceção do remate de gaveto com a escadaria e acesso ao arruamento e todo o miolo foi substituído pelo convencional e banal estrutura de pilar e viga alvenaria e acabamentos com gesso cartonado.
Iniciam-se as obras, e quando percorria as redes sociais, vejo os comentários de uma colega que se especializou na recuperação de edifícios, “fundamentalista”, colocando em causa a falta “de respeito” do arquiteto autor do projeto, por não ter usado os materiais originais, e mantido na íntegra o desenho interior e exterior do edifício em causa.
Como só não se sente quem não é boa gente, fiquei bastante incomodado com o comentário, pois além de desconhecer todo o processo e esforço para manter a mais possível o caracter original do construído, é muito fácil para quem se dedica a uma carreira académica , ter este tipo de postura. Só era viável manter com apoios fortes do estado, pois era e é impossível a um privado fazer uma recuperação na íntegra por motivos financeiros e falta de técnicos operários conhecedores dos sistemas construtivos usados á época da construção.
Em conclusão, o edifício está lá manteve-se o que foi possível e toda a intervenção nova foi com a linguagem contemporânea, e não me envergonho do resultado, antes pelo contrário.
Hoje traçava exatamente o mesmo percurso .